Reportagem Globo Rural

 

Reportagem Globo Rural

05/03/2003

 

O programa “Globo Rural” que foi ao ar na manhã do dia 5 deste, trouxe uma das mais bem elaboradas reportagens sobre burros e mulas que já tivemos a oportunidade de assistir. Estendeu-se por quase uma hora, dissertando sobre a origem desses animais, o quanto eles são fortes e inteligentes e com enorme ênfase para o crescimento do contingente que hoje se dedica a sua criação, procurando o aperfeiçoamento da raça. Nossa surpresa maior foi quando o repórter Nelson Roberto Araújo entrevistou nosso conterrâneo José Maurício Franco, hoje proprietário da mula mais valiosa, mais charmosa e mais famosa do Brasil. Vejam, na íntegra, o segmento em que o andradense é citado:
O Charme dos muares
Cantar uma moda antiga, do tempo em que não se podia imaginar que burro e mula fossem destaque em concursos de marcha, vale mais que uma caminhonete zero.
O novo interesse por muares ressuscitou o muladeiro, uma categoria muito comum no tempo dos tropeiros, pelos séculos XVII e XVIII. O muladeiro comercializa mulas e burros. Ele compra o animal xucro e o prepara para a lida ou para passeio, como acontece em uma propriedade, no município de Bragança Paulista, a 70 quilômetros de São Paulo.
Álvaro Biazetto é conhecido como Gigio, um dos muladeiros mais ativos. Ele não faz criação, roda o País comprando e vendendo muares. Só mexe com animal adulto. Assim que desembarca, ensina a tropa a entrar em forma.
Mesmo os mais xucros, logo aprendem a dar o traseiro para a cerca e a frente para o peão. É um velho truque de manejo.
“É bem mais fácil mexer com o animal depois que ele aprende” – disse Gigio.
Fica uma facilidade botar o cabresto. O animal se habitua rapidamente.
Cerca de mil animais passam pelas mãos de Gigio todo ano. Ele separa os lotes de acordo com a vocação. Os de serviço recebem treino próprio de lida, como se acostumar e não se assustar com o estalo do chicote que adverte a boiada.
Os de sela recebem atenção especial. Ele passa boa parte do dia corrigindo defeitos de andamento. Conhece todo tipo de macete para o acerto de passo. Uma hora é uma beliscadinha na rédea. Outra, um quase imperceptível arrocho de perna. Consegue mudar a marcha em um muar como os motoristas trocam a marcha num carro. Ele começa na batida e muda para a marcha picada.
O muladeiro também se preocupa com o visual. Geralmente, os animais são tosquiados com aparados estilosos, ora destacando o dorso e ora o pescoço. Faz-se também o toso das orelhas. Umas completamente aparadas; outras, só pela metade ou na ponta. Igualmente, as crinas são despontadas formando desenhos coloridos.

O rabo é trançado em rodilha, hábito que vem dos tropeiros. Em terreno enlameado o bater da cauda pode sujar quem está em cima. O arreamento é cheio de adorno. É uma tradição: quem gosta de burro e mula, gosta de enfeite.
Tem cabeça de sela revestida de prata, peitoral com argolas de alpaca e bombas prateadas também em alto relevo. São ornamentos que lembram uma condecoração, um tilintar que é música para o ouvido do muladeiro.
Essa paixão secular agora se reacende. Tanto no Sudeste como no Centro-Oeste do Brasil vive-se, pode-se dizer, uma nova onda de “mulomania”. Nos municípios de forte tradição rural, os muares agora são as estrelas da festa. Em 2002, foram realizados pelo menos 150 concursos de marcha, cabendo às mulas e aos burros o encerramento de gala.
São julgados quatro quesitos no concurso de marcha de muares: estilo, comodidade, rendimento e resistência do animal na pista.
Especialistas em andamento, como o Paulo Roberto Ribeiro, fazem o julgamento. Observam se o animal tem elegância ou fica se batendo todo, se tem passada firme e ampla; se mantém o ritmo da marcha pelo menos por uma hora seguida e se é confortável de montar.
Assim como num jogo de futebol, um grande público vai assistir ao concurso. Pessoas entusiasmadas que levam a família e os amigos.
A classificação é sempre comentada. No alto falante, o juiz explica o resultado. Os prêmios são cobiçados. Dois, três mil reais em dinheiro. Ou, então, moto. Tem até carro.
A mula Aliança, de oito anos, é a mais premiada do Brasil. Ela já venceu mais de 50 concursos e já faturou R$ 100 mil. José Maurício Franco , residente em Andradas / MG, é o proprietário da mula. “Eu paguei R$ 50 mil. Esse é um animal de elite, muito valorizado dentro da raça” – revelou.
A Aliança é um caso raro. Mas os negócios fervem nesses encontros de muladeiros. São comuns vendas de mulas e burros por cinco, dez, vinte mil reais.
A valorização do animal de concurso é o reflexo do interesse cada vez mais crescente pelo burro e pela mula de passeio. Não tem fim de semana e feriado que muladeiros e apaixonados por muares não se reunam para uma trilha ou uma romaria.
Os que vêm de longe trazem a tropa em cima do caminhão. Um vai ajudando o outro nos preparativos. É como se fosse um mutirão entre amigos organizando uma festa. Um grupo traz o lanche. Outro, a bebida. Mais que arreados, os animais são paramentados. Afinal, é hora de se exibir. A beleza da mula, do burro, da tralha, por que não, de quem monta.
No relevo da serra de Paranapiacaba, nome que se dá à serra do mar, no sul de São Paulo, foi realizada a burrada. Pode parecer estranho porque burrada virou sinônimo de coisa malfeita e de estupidez. Mas no lugar ninguém achava apropriado chamar um passeio com burro e mula de cavalgada. É burrada.
Como sempre, a paisagem escolhida é bonita, o caminho agradável. Para esta burrada ou mulada, foram 79 animais da região de Sorocaba, Itapetininga, São Paulo.
Entre os participantes, além de criadores e muladeiros propriamente, tem sitiante, caminhoneiro, médico, advogado, engenheiro, professor, contador. Muita gente que vive em cidade, mas que adora montaria.
Ao contrário das outras raças que têm padrões bem definidos, não existe entre os muares o chamado tipo ideal. Por causa dos variados cruzamentos, encontra-se mula e burro de todo o tamanho e conformação. Mas, especialmente para passeio, criou-se o gosto por um animal de porte mais elevado, acima de 1,5 metro de altura e, de preferência, de 1,54 metro.
Agora, as pessoas vão pensar duas vezes antes de chamar alguém de burro e falar em burrice. Também irão considerar com agrado o convite para fazer uma burrada. O automóvel está no Brasil há uns cem anos. Os burros e a mulas estão há quase 500 anos.